Quinta-feira, 17 de Setembro de 2009

As quintas são da Margarida. (IV)

Todos os silêncios.

Hoje sonhei que acordava ao teu lado. Estávamos noutra cidade, a meio caminho entre a tua e a minha. Tu tinhas deixado os medos em casa e eu trazia a boca cosida para não te assustar com os meus planos. Parece-me que estávamos em Creta, ou talvez fosse a Tunísia. Era um lugar muito belo, que reflectia toda a elevação e profundidade que existe entre nós, um espelho infinito do nosso bem-estar. Tinha vista para o mar, ou para o deserto, tanto faz. Era de manhã muito cedo quando acordámos ao mesmo tempo e fomos para o terraço olhar para longe, que é onde vive o nosso futuro tão incerto quanto possível.
Pela primeira vez em muitos anos, não acordaste com o despertador nem te apressaste para o duche. Ficámos ali, seminus, sentados no chão do nosso céu, enroscados um no outro como se tivéssemos nascido ao mesmo tempo, gémeos que nunca se conheceram, siameses presos pelo mesmo coração.
Lembro-me de um silêncio divino e apaziguador e do sol já a queimar-nos a pele. Lembro-me do perfume no ar, a mistura do teu com o meu, com o nosso, depois e ainda durante o que podíamos chamar amor. Não sei se era amor ou não, mas já não me preocupo em dar a todas estas coisas um nome próprio, porque o que não tem nome perdura para lá de todos os tempos e existe fora de todos os dicionários, e o que sinto por ti deve pertencer a essa categoria inominável das forças misteriosas que governam o mundo, provocam tornados e terramotos, varrem as praias com ondas e mudam o curso dos rios.
Se vivêssemos no mesmo país, o silêncio seria uma das nossas melhores companhias. Só falamos muito porque não nos vemos, não nos podemos tocar, não estamos à distância de uma viagem de carro nem de um par de horas de comboio. Falamos muito porque o que temos para dizer um ao outro e um sobre o outro não pode ser entendido por mais ninguém. O resto do mundo que se desenha à nossa volta, é como um filme: um cenário com as cores e as proporções certas, uma banda sonora inteligente e diálogos interessantes nos quais até somos bons actores e representamos bem o nosso papel, mas nos deixa quase sempre uma sensação de vazio, ou de absurdo, por sabermos que apenas uma parte do que somos está ali e que a outra anda perdida dentro nós.
É por isso que quando falamos, o mundo pára à nossa volta. Tu atrasas-te e eu esqueço-me do que tenho para fazer, mas mesmo assim continuamos a conversar porque é melhor chegar atrasado do que andar perdido, e andamos os dois à procura do mesmo caminho, tu a sair da espiral e a mergulhar nela, num movimento contrário que a sorte ou a vontade podem um dia reverter a nosso favor. Depois tu desligas, encolhes os ombros e vês no espelho o homem que pensas que és e não percebes como é que eu vejo outro homem em ti, apesar de todos os teus defeitos.
Vou contar-te uma história que já conheces. Afinal não são as histórias que já conhecemos de cor e salteado que mais prazer nos dá ouvir?
Era uma vez uma princesa cavaleira que tinha a mania de ser guerreira. Comandou exércitos e reconquistou territórios. Libertou mulheres presas e absolveu condenados. Teve uma vida cheia de vitórias e não lhe faltava nada, a não ser um grande amor. Quando o descobriu, a princesa temerária montou outra vez no cavalo e foi atrás dele. E ele assustou-se porque percebeu que ela era indomável como as forças misteriosas da natureza que fazem tremer a terra e varrem praias. Cansada de correr, a princesa voltou para o castelo, subiu à torre, onde ainda hoje sonha que ele a venha buscar, não se pode correr atrás dos homens, eles não gostam, percebeu ela, depois de muito tempo. Assim, deixou-se ficar na torre, que transformou num farol, para que ele não se perdesse no caminho quando a quisesse encontrar. De vez em quando vejo-a a mandar sinais de fumo em forma de mensagens; mapas em forma de cartas; setas em forma de presentes. Vejo-a sossegada, mergulhada no silêncio dos seus sonhos. Vejo-a sentada naquele mesmo terraço, com o mar em frente, ou o deserto, tanto faz. E ao lado dela vejo um príncipe imperfeito, mas perfeito para ela, porque a perfeição está em tudo o que se ama. A nossa perfeição nunca se vê no nosso espelho; vive nos olhos dos outros e no amor com que nos vêem.
Podes acabar a história como quiseres, tu também tens coração de poeta e alma de escritor, embora mais ninguém a saiba ler como eu. Podes acordar amanhã e escolher o teu lugar ao sol, sentar-te no chão do teu céu e abraçar uma princesa guerreira que se rendeu sem lutas, porque o que sente por ti não cabe em nenhum dicionário e vive na força do vento, nos pingos da chuva, na rotação do planeta que faz avançar o dia. Não tenhas medo dela, nem de ti, nem do futuro, porque o presente já é o futuro e um dia desfaremos a espiral e teremos tempo para todos os silêncios.
Margarida Rebelo Pinto.
publicado por anna. às 09:27
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13 comentários:
De Marie C. a 17 de Setembro de 2009 às 12:36

Lindos os teus textos qerida *
De inês. a 17 de Setembro de 2009 às 14:58
ESTE TEXTO ESTÁ LINDO.
GOSTEI TANTO TANTO TANO *.*
De inês. a 17 de Setembro de 2009 às 19:18
andas por aí? $:
De R. a 19 de Setembro de 2009 às 16:35
pois, não dá :$ mas fico tão feliz por gostares :')
ADORO o novo visual <3
De Diana* a 19 de Setembro de 2009 às 20:39
Os teus textos são muito lindos e gosto muito deles pq tambem têm partes da minha vida...

...se vivessemos no mesmo país...
De v. a 19 de Setembro de 2009 às 21:27
Adorava ter uma escrita tão poderosa quanto a da Margarida. Todos os seus textos são simplesmente fantásticos.
De a 19 de Setembro de 2009 às 23:26
adoro-a :)
De R. a 20 de Setembro de 2009 às 16:09
obrigada pela força, obrigada pelos elogios :$ tens sido uma querida comigo <3
fico muito contente por gostares das frases :')

OBRIGADA (L'
De Sara a 20 de Setembro de 2009 às 18:43
Olá gémea! (Não tenho tido muito tempo para aqui vir... é actualizar o blog e sair logo). Ainda bem que gostaste! Estes teus posts da Maragrida então são um mimo *.* Gosto tanto!
beijinho*
De j @ a 21 de Setembro de 2009 às 20:26
obrigada, querida :$

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